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Crise na Comunicação

Por Ana Marina Martins de Lima/ Ambiente do Meio

Primavera. Foto: Ana Marina Martins de Lima

Vivemos em tempos difíceis para comunicação entre as pessoas apesar de várias ferramentas criadas pelo homem a partir de conhecimentos de informática junto as variáveis da tecnologia e dos equipamentos fabricados e consumidos vorazmente pela sociedade o homem do dia atual não se comunica com o seu semelhante.

Esquecemos aos poucos como falar com o outro, hoje em todos os lugares seja na sala de estar de sua casa; num bar ou mesmo no transporte público não ouvimos o outro porque estamos preocupados e inseridos em um meio de comunicação doentio que não nos permite nos comunicar. Nós falamos e falamos e sempre temos a razão.

É incrível caminhar em uma cidade como São Paulo, na Avenida Paulista onde diariamente os bares estão lotados e as calçadas com cadeiras onde  as pessoas com a comida no prato e a bebida ao seu lado, o amigo que veio de outra cidade ou país a sua frente, mas elas mantém olhar fixo na tela de seu celular.

Em outras ocasiões alguém passa mal dentro de um transporte público como o metro, pede socorro e ninguém escuta ou mesmo vê, pois os ouvidos estão emergidos na música que sai da tal caixinha chamada celular ou mesmo de fones modernos ou simplesmente olhando para tela do celular, são 5 da manhã mas é necessário passar uma mensagem para um amigo ou grupo a única emergência é falar.

Infelizmente nossas palavras tornaram-se vazias e isto independe do nosso maravilhoso conhecimento técnico ou se somos pessoas simples que não tem conhecimento técnico no sentido de formação acadêmica na medida em que deixamos de escutar o outro para somente escutar o nosso ego.

Estamos na era da Inteligência Artificial que para muitos é um desafio, mas ela não existe se nós simples humanos não estivermos no comando; contudo o maior desafio para a sociedade hoje é escutar o outro.

Abaixo o texto maravilhoso de autoria de Rubens Alves para nossa reflexão:

Escutatória

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil… Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas… Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos… Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios… Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, [expulsando todas as ideias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer:

“Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai à reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.  Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

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